Perdi-te meu amor por essa tarde,
Sem as certezas cúmplices da razão.
E com o tempo fiquei refém desta saudade,
Que estilhaça aos poucos o meu coração.
Nas noites só, recordo a esperança,
Animal que da carcaça quer fugir.
Nessas memórias há sempre uma lembrança,
Que no meu silêncio me vem a punir.
E o vazio de uma fome que me suga o corpo,
Traz-me a revolta que também acalma.
Agora, remanescente, mais que morto,
Sinto-me um vivo sem alma.
Frio! Frio que é um tremer e é relento,
Desnudado desse tacto de existência.
Só, sem abraço, beijo ou alento,
Cubro-me nas horas com demência.
As tuas papoilas ainda são o meu negrume,
E desfolham as estrelas e os grilos no Verão.
São vale, são monte sem cume,
São o meu tecto sem chão…
Lágrimas que enfeitam este colo e o pescoço,
Erguem-me, de quando em vez, atordoado de paixão.
Trago corvos e gaios no meu dorso…
Trago pecados dignos de perdão.
Passo as noites, essas noites só, mais que um dia,
Com medo de um rastilho a queimar veloz.
Rezo uma Ave-Maria,
Som de um grito sem voz.
Vazio, tão vazio. Sou de todos sem pertence,
Sem causas, porquês ou desdém.
Perdido como quem vence,
Somente teu, não de outro alguém.
Pai Nosso que estais no céu, pão-nosso de cada dia,
Herói, mais que soldado!
Jesus, Jesus! Ressuscita-me por magia,
Deixa-me pernoitar a seu lado.
Tão lúgubre, já sem pronuncia…
Entregue, noivo fiel.
De alguém que por denúncia,
Se tornou dona cruel!
Clave d’uma sinfonia,
Sou piano, harpa, sou violino a tocar.
Eu que só pretendia,
Fazer-te mulher no altar.
O Sol que me queima, ai tão sombrio!
É estrela, dono, maior!
Estação, tempo fugidio…
Abutre raro de Condor.
Preso a um esquife dourado,
Bússola, sou Norte sem rota nesse mar…
Sou epílogo malogrado,
Asco, repulso a reinar!
Perdido, sem ter conceito,
Capa dura, mal tratada.
Cego só por despeito,
Vista cansada, vendada.
Na minha cabeça bate, bate. São juras doces, feitos salgados,
Promessas ditas em vão.
E vozes de segredos já falados,
Torturas de conspiração.
Morte: tu que ma levaste por arrasto,
Retribuindo com um sorriso os seus pecados.
Fazendo do padre não meu Pai, mas meu padrasto.
Para em sinal de cruz zelar pelos seus fados.
Quem sabe se farei por ti o impossível?
Entrando no que resta do que é teu.
Tornar-me alma pela dor inatingível,
Ser nuvem, ser azul e ser o céu.
Não é só a solidão, é a ansiedade.
O que me leva a desejar as tuas danças.
E desejar-te aqui de carne, de verdade.
Para cheirar o teu cabelo, as tuas tranças.
Odeio-te pelo que sou!
A ti, somente a ti que me deixaste nestes gritos.
Sem saber hoje e amanhã para onde vou,
Mendigando por caminhos infinitos.
Por vezes ainda penso que sou novo,
Que posso sonhar, ser chama e ser brasa.
Mas quando envolto no seio deste povo,
Percebo que sou eu, só eu, sozinho em casa.
Sonho…se o for deixa que o seja.
Que ainda a sofrer este rio corre para a foz,
Como que uma gaivota que todos os dias só deseja,
Ser maior, tornar-se um albatroz.
Talvez tenhamos sido vítimas de inveja.
Ou de algum sentido pouco vago.
E sem algo ou alguém que me proteja,
Partiste tu e fiquei eu sem o meu afago.
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