segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A ilha de Ghrome

Elizabeth nascera na aldeia mais pequena da ilha de Ghrome e desde cedo se fizera notar pela sua beleza física e espiritual. Entre crianças morenas e robustas lá estava ela, nem sempre a sorrir ou a brincar como os outros, mas mais viva no brilho dos seus olhos azuis e dos seus cabelos loiros encaracolados. Vivia com os avós, na velha azenha que produzia o azeite para Ghrome e todas as aldeias vizinhas do arquipélago.
Todos os dias, ao acordar, Elizabeth calçava os seus socos dos sonhos e deslizava no seu longo vestido até à janela para verificar se ainda lá estava o ninho das andorinhas, pois tinha medo que a Primavera fosse embora.
Elizabeth dormia sempre de vestido. Depois descia as escadas de madeira em forma de caracol e ia para a cozinha ajudar a avó a preparar a feijoada.
Às dez da manhã tocava o sino da igreja e todos os habitantes da aldeia iam para o átrio com as suas tigelas de feijoada para comungar mais um dia com um sorriso. Elizabeth sorria, mas o seu sorriso não era igual ao sorriso das outras crianças sem cor nos olhos.
Viviam todos do campo e o fruto das suas colheitas era o sustento da toda a aldeia. Eram todos sempre felizes, excepto Elizabeth, que continuava a sonhar com a terra da Primavera…achando que as andorinhas eram como o vento e que traziam dos lugares mais distantes a semente de uma felicidade diferente.
Não se recordava dos pais, sabia apenas que a haviam deixado com os velhos na azenha e partido com os seus irmãos para povoar o extremo oposto da ilha. Elizabeth ficara com os velhos para que eles fossem felizes. Toda a gente sabia que velhos sozinhos não eram felizes e aqueles velhos, tal como todos os outros habitantes, tinham que ser felizes.
Na aldeia de Ghrome não havia rivalidade, nem confronto, na aldeia de Ghrome não havia qualquer desencontro, na aldeia de Ghrome toda a gente era feliz. As crianças não estudavam nem liam fruto de uma descendência que também não sabia ler.
Depois da feijoada ia o camponês para os campos, o pedreiro para a obra e o padeiro para a padaria; mas só o tempo estritamente necessário para obterem o essencial para a sua sobrevivência. A seguir brincavam, mesmo os mais velhos, dançavam ou amavam.
As horas para dormir eram muitas e à noite, nessas horas prolongadas do sono, Elizabeth abafava a cara na almofada e os seus olhos ficam ainda mais azuis para chorar.
Para ela, a Felicidade era uma ilha diferente da ilha de Ghrome e era lá que habitavam os senhores «felizes». Não encontrava em Ghrome a diferença entre o choro e o sorriso e não perceber algumas diferenças era para ela muito confuso.
Naquela manhã, Elisabeth despiu-se dos socos e do vestido e em vez de descer as escadas em caracol, subiu ao telhado para experimentar o vento das andorinhas de Primavera…foi uma manhã certeira, pois o vento estava de leste e fez com que Elisabeth voasse…

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