segunda-feira, 19 de setembro de 2011

«Matei a minha melhor amiga»

O mausoléu começou a desmoronar-se e a cair, pedra por pedra, e o sonho deixou de ser nítido. Voltei a mim, à minha carne, e acordei.
Acordei passados vinte e um dias de um coma profundo, um coma que tinha durado dezassete anos, a minha idade. Doíam-me os músculos e sentia um formigueiro fugaz nos dedos dos pés.
O despertar foi estranho, senti que estava a deixar de ser um estereótipo do que era politicamente correcto, para integrar, à força, a classe da gente estranha a que chamavam de coitadinhos por tudo e por nada.
Percebi que era a parte que se retira do bolo por estar queimada.
Era, simplesmente, e contra tudo o que a palavra simplicidade possa significar, um homem em corpo de mulher. Um homem a quem o nome Joana não se enquadrava.
Sabia que a culpa nem era deles, mas da sequência de vida que todos levávamos desde a nascença.
O facto de ter sido parido cedo demais para expressar a minha identidade e ter estado até então dependente dos outros para comunicar, deixava-me em desvantagem social porque só agora, que eu demonstrava alguma autonomia, é que era capaz de desmascarar as falsas interpretações que o mundo à minha volta tinha feito a partir das explosões da minha fisionomia.
Identificaram-me e registaram-me inebriados pelo que viam, caindo em erro, porque tudo o que o meu corpo espelhava era uma miragem.
A velha de avental estava sentada na cadeira ao lado da cama do hospital e chorava, limpando de seguida as lágrimas ao forro da saia. Lamentava-se pela porcaria de vida que tinha.
Eu queria encostar a minha cabeça à sua barriga e ultrapassar a epiderme que a envolvia entrando novamente lá para dentro, para o útero.

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